eNews ABEP
Edição nº 35 - São Paulo, 28 de Janeiro de 2009

50% homens, 50% mulheres...certo? Ah, não?

Por Adélia Franceschini (*)

 

adelia3

Lá se vão quase seis anos. Parece pouco olhando-se um período desses sob certas perspectivas, mas parece muito olhando-se sob outras.

O que posso garantir é que, pra mim, é pouco, pouquíssimo, ao menos se considerarmos o quão vívida ainda é a lembrança daqueles minutos...longos minutos.

Minha empresa atendia, já há anos, um cliente que era um dos grandes players do setor da comunicação.

A área específica que nós atendíamos havia trocado de diretor-geral recentemente, e aquela era a primeira apresentação já com sua participação.

As informações sobre o citado cavalheiro eram as melhores: com menos de 40 anos, graduado em Harvard ou similar, jamais saberei, já tinha alcançado aquela posição profissional, numa empresa daquelas....

Sala cheia, eu e mais 30 pessoas do cliente, começo a apresentação destacando como o universo foi montado. Sabe aquela parte inicial, quase enfadonha? Pois é....

_ As entrevistas foram realizadas com "x" pessoas, divididas equitativamente em 50% homens, 50% mulheres. As praças pesquisadas foram...

Com um tom de voz muito, muito acima do elegante ou socialmente aceito, o diretor-geral não me deixa terminar a frase.

_ Mas como você... aliás vocês, você e as pessoas da sua empresa, são conservadores!

Naturalmente, o silêncio de todos, somado ao meu próprio, "dava pra pegar com a mão", como os mais antigos descrevem esses momentos.

_ Desculpe, senhor, não entendi.

_ Sim, sim....conservadores. Vocês ainda não estão antenados com a nova realidade?

_ Lamento, ainda não entendi.

_ Tá bom...tá bom....eu explico pra você. Veja só: 50% homens, 50% mulheres. Uma amostra com 50% homens e 50% mulheres! E os gays? E as lésbicas? Eles também compram o nosso produto, não é? Ou você vai querer me garantir que não? Ahn?

O silêncio não poderia ficar maior, mas ficou. A ele, somaram-se o constrangimento de todas as outras 29 pessoas. Alguns baixaram a cabeça, outros não conseguiam desarregalar os olhos.

Com muito cuidado - entre o constrangimento similar ao de todos e uma vontade quase incontrolável de desabar em risos - expliquei, da forma mais adulta que a situação requeria, que sexo é diferente de preferência sexual.

Essa confusão existia, existe e acho que existirá para sempre, mas, convenhamos, vindo de quem veio...

Esta empresa fechou, e faz tempo....

Finalizando: nestes 30 anos de trabalho no setor, posso afirmar sem receio algum que empresas geridas por pessoas que não entendem, nem o mínimo, de pesquisa de mercado, fecham....

 

 

Adélia Franceschini (*) é socióloga pela Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo, pós-graduada com Lato Sensu em Administração de Empresas pela EASP-FGV. É diretora da A. Franceschini Análises de Mercado desde 1991.
É consultora-sênior de Pesquisa da GVconsult e professora palestrante dos cursos de pesquisa da EAESP/FGV desde 1994. Professora de pesquisa de mercado na ESPM .

FALE CONOSCO

eNews é um veículo do qual todos os associados ABEP podem participar. Basta enviar informações sobre pesquisas, novos produtos, movimento, cursos, eventos, para o e-mail enews@abep.org ou pelo telefone(11) 3078.7744, com Armando.

ABEP - Associação Brasileira de Empresas de Pesquisa - 2008
R. Urussui, 92, cj 55 - Itaim Bibi - 04542-050 - São Paulo - SP
www.abep.org - abep@abep.org - Fone: (11) 3078.7744 - FAX: (11) 3168.2026