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Edição nº 41 - São Paulo, 26 de maio de 2009

O impacto da recessão

(Revista Research World, edição de maio de 2009)

Apresentamos os resultados de um estudo de tendências de consumo em 25 países que mostra as mudanças nas expectativas e atitudes em relação à desaceleração econômica.

Por Jean-Marc Léger (*)

 

A crise econômica afetou intensamente as economias mundiais. Pessoas em todos os lugares perderam a confiança nos sistemas econômicos e financeiros e mudaram seus hábitos de consumo, procurando adaptar-se à nova realidade. Entretanto, também observamos que a crise atingiu um platô em alguns países ao longo dos três últimos meses e que sinais de recuperação estão começando a surgir.

A rede WIN, que reúne as maiores empresas independentes de pesquisa de mercado e de opinião do mundo, conduziu a mais extensa pesquisa sobre a crise econômica, com 20.325 cidadãos, representando 25 países.

Mensurar a opinião pública em diversas partes do mundo não é uma tarefa fácil. O questionário deve ser adaptado às diferentes culturas e realidades de cada país. Como as empresas de pesquisa utilizam métodos diferentes para a coleta de dados (entrevistas pessoais, CATI ou CAWI), precisamos selecionar amostras randomicamente de forma probabilística, e utilizar insights perspicazes na interpretação dos resultados. Entretanto, a força desta pesquisa global não está apenas no tamanho da amostra e no número de países pesquisados, mas também em sua natureza trimestral, que nos permite acompanhar e entender as atitudes e comportamentos dos cidadãos ao redor do mundo.

Conforme esperado, as expectativas financeiras gerais são pessimistas, com apenas 16% dos entrevistados acreditando que, nos próximos três meses, a situação econômica de seu país melhorará, 35% achando que permanecerá a mesma e 43% que piorará.

Enquanto os cidadãos dos países G8 têm expectativas negativas (55% dizem que a situação financeira piorará, 30% acham que permanecerá a mesma e apenas 8% acreditam que melhorará), os cidadãos nos países BRIC encontram-se mais divididos, com 24% de otimistas, 39% que acham que não mudará e 29% de pessimistas. De fato, o Reino Unido (67%), a França (63%), a Espanha (61%) e a Alemanha (61%) são pessimistas em comparação ao Brasil (14%), à China (29%) e à Índia (33%).

 

UM LAMPEJO DE ESPERANÇA


Por trás deste pessimismo, nosso acompanhamento mostra sinais de recuperação, na medida que as percepções negativas pararam de aumentar. De fato, 10 entre os 25 países pesquisados estão registrando níveis mais altos de otimismo. Para mensurar este fato e acompanhar a tendência, fizemos a seguinte pergunta no primeiro e segundo trimestre: Nos próximos 3 meses, você acredita que a situação econômica em seu país irá melhorar, permanecer a mesma ou piorar?

O primeiro sinal mostrando pessimismo é o declínio na proporção de entrevistados que acham que a situação piorará, que permanece em 49%. Apesar das expectativas ainda serem pessimistas, os primeiros sinais de recuperação estão emergindo, particularmente na Coréia, no Reino Unido, na Islândia, no Japão e no Canadá. No sentido oposto, a percepção negativa aumentou na Índia, na Espanha e na Suíça. As perspectivas em relação à economia pessoal são muito mais favoráveis que em relação à economia nacional, na medida que os cidadãos ainda acreditam que a crise econômica está afetando principalmente seus vizinhos.

Fizemos a seguinte pergunta: Nos próximos 12 meses, você espera que sua renda familiar aumente, permaneça a mesma ou diminua? 25% acreditam que sua renda familiar aumentará, enquanto 45% acreditam que permanecerá a mesma e apenas 24% acham que diminuirá.

 

OPORTUNIDADES


Um dos melhores indicadores da situação econômica de um país é a intenção de adquirir imóveis. Perguntamos aos entrevistados: De forma geral, você acredita que este é um bom ou mau momento para comprar uma casa? A esta pergunta, 26% acreditam que é um bom momento, 41% acreditam que não é e 25% não têm certeza.

O mercado imobiliário não deverá ser demasiadamente afetado na Austrália (54%), na Suíça (49%), na Áustria (42%), no Canadá (42%) e nos EUA (41%), países nos quais 4 em cada 10 entrevistados acham que é um bom momento para comprar uma casa. Entretanto, quem está vendendo propriedades na Arábia Saudita (11%), na Rússia (12%), na Argentina (13%), no Japão (15%) e no Brasil (15%) precisará ter mais paciência, com muito menos pessoas acreditando que seja um bom momento para comprar uma casa.

Enquanto no primeiro trimestre o nível médio de confiança nos governos estava a 5,2 em uma escala de 10 pontos, agora está a 4,8; abaixo, portanto, do limiar psicológico de 5. Os japoneses (2,9), os britânicos (3,4), os libaneses (3,7), os argentinos (3,9), os coreanos (3,9), os franceses (4,0) e os espanhóis (4,0) são os mais críticos em relação a seus governos. Até mesmo a avaliação da nova administração americana caiu de 6,3 para 4,8. É interessante observar que os chineses (6,7), os brasileiros (6,4) e os indianos (5,4) têm as percepções mais positivas em relação a seus líderes.

Além disto, as percepções da solidez e estabilidade dos bancos e das bolsas de valores enfraqueceu, com o nível de confiança caindo de 5,3 para 5,1 para os bancos e de 4,0 para 3,7 para as bolsas de valores.

 

NOVOS HÁBITOS DE CONSUMO


Estas preocupações com a economia e os sistemas políticos e financeiros finalmente exerceu um impacto nos hábitos de consumo ao redor do mundo. Mesmo que estejam convencidos que suas finanças pessoais não serão tão afetadas em curto prazo, consumidores cortaram significativamente suas despesas não essenciais e também estão repensando algumas de suas despesas básicas.

Os consumidores que cortaram mais suas despesas estão no México (55%), na Argentina (53%), na Islândia (49%), nos EUA (47%) e no Japão (46%). Por outro lado, os cidadãos na Suíça (19%), no Qatar (20%), no Kuwait (27%), no Líbano (28%), na Áustria (29%), nos Emirados Árabes Unidos (31%), na Arábia Saudita (31%), assim como no Brasil (32%), no Canadá (32%), na Alemanha (32%), na Espanha (33%) e na China (34%), cortaram significativamente menos suas despesas.

 

DIFERENÇAS


Os resultados da pesquisa mostram quatro grupos distintos de países, segundo as percepções em relação às perspectivas econômicas e hábitos de consumo:

Grupo 1
Economias mais fortes: Brasil, China, Kuwait, Líbano, Qatar, Arábia Saudita e Emirados Árabes Unidos são os países menos afetados pela crise econômica. Suas expectativas em relação ao futuro econômico de seus países está acima da média e não reduziram significativamente seus gastos. Os cidadãos destes países estão passando pela crise econômica atual com mais facilidade.

Grupo 2
Economias em enfraquecimento: As percepções econômicas da Índia e da Rússia estão acima da média, porém os cidadãos reduziram seus gastos pessoais em proporções mais fortes, em comparação à media global. Consequentemente, a economia de seus países permanece frágil em curto prazo.

Grupo 3
Economias em declínio: Apesar da percepção da Áustria, Canadá, Alemanha e Suíça em relação a suas economias estar abaixo da média, seus cidadãos não reduziram significativamente seus gastos pessoais. As perspectivas negativas muito provavelmente farão que reduzam seus gastos, portanto permanecendo em um ciclo econômico negativo por mais tempo.

Grupo 4
Economias em colapso: Argentina, Austrália, França, Islândia, Itália, Japão, México, Espanha, Reino Unido e os EUA são os países que mais sofrem com a crise econômica. As perspectivas econômicas estão abaixo da média e os cidadãos cortaram drasticamente seus gastos pessoais em comparação à média global. Provavelmente demorarão mais para se recuperar.

 

PLATÔ


Esta pesquisa profunda de opinião pública nos permite tirar cinco conclusões importantes:

  1. A percepção global da situação econômica chegou a um platô.
  2. Apesar do otimismo ter aumentado em 10 dos 25 países pesquisados, as perspectivas econômicas ainda permanecem negativas em 20 dos 25 países.
  3. As perspectivas econômicas nos países BRIC e árabes permanece mais positiva que em comparação aos países G8.
  4. O nível de confiança na capacidade dos governos gerirem a situação financeira e a confiança na estabilidade e solidez dos bancos e bolsas de valores declinaram.

Despesas em vestuário/calçados/acessórios, entretenimento/restaurantes/cinema, compras vultosas para o domicílio, férias/viagens e gastos em supermercado são os setores mais afetados.

A crise econômica foi surpreendente, brutal e injusta, porém alguns países foram mais resistentes que outros. A solidez dos sistemas financeiro, bancário e do mercado de construção, a diversidade da estrutura industrial, a força da moeda local, a explosão demográfica, as políticas dos governos e a proximidade com o mercado americano são fatores importantes que influenciaram a força e resistência à crise de cada país.

O mundo mudou e o poder trocou de mãos. Os EUA não são mais a super potência do mundo. O poder foi para as mãos do consumidor. A opinião pública agora tem o poder de vida e morte para seu produto, serviço, empresa e até mesmo a economia de seus país.

Você mudou, sua opinião mudou e o mundo mudou.

 

 

(*)Jean-Marc Léger é presidente da Léger Marketing, uma empresa do Grupo WIN

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